ARTIGO | DIREITO DA SAÚDE | LEITURA: 11 MINUTOS

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Evilasio Tenorio
OAB/PE 31.019 · Advogado especialista em Direito Médico e da Saúde. Co-autor de livros jurídicos.

Resumo do artigo

O artigo aborda a questão do descredenciamento de empresas de home care por planos de saúde e os impactos disso para pacientes que dependem de internação domiciliar contínua. Destaca que, embora as operadoras possam alterar sua rede credenciada, é essencial garantir a continuidade do atendimento sem interrupções ou redução dos serviços prescritos, como enfermagem, fisioterapia e fornecimento de equipamentos. A substituição deve ser feita de forma planejada e comunicada adequadamente aos beneficiários para evitar riscos à saúde do paciente.

Introdução

O plano de saúde não pode descredenciar a empresa de home care e deixar o paciente sem internação domiciliar, equipe, insumos, equipamentos ou terapias necessárias.

A operadora pode alterar sua rede credenciada em algumas situações. Mas, quando o paciente já está em home care, a substituição da empresa precisa ser feita com segurança, continuidade e transição adequada.

O problema é grave porque o home care não é um atendimento eventual. Em muitos casos, ele substitui ou prolonga a internação hospitalar dentro da residência do paciente.

A retirada abrupta da empresa pode interromper enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, fornecimento de dieta, oxigênio, cama hospitalar, aspirador, bomba de infusão, curativos, medicamentos, materiais e acompanhamento médico.

Nessas situações, o descredenciamento pode gerar risco imediato ao paciente.

Este artigo explica o que fazer quando a empresa de home care é descredenciada, quais são os direitos do beneficiário e quando pode caber ação judicial com pedido de liminar.

Este conteúdo faz parte do cluster sobre descredenciamento pelo plano de saúde e aprofunda o tema do artigo plano pode descredenciar prestador durante tratamento contínuo?.

O plano pode descredenciar empresa de home care?

O plano pode alterar sua rede, mas não pode interromper a internação domiciliar em andamento.

Se o paciente está em home care por prescrição médica, a operadora precisa garantir continuidade. A troca da empresa não pode criar lacuna de atendimento, retirar equipe essencial, suspender equipamentos ou reduzir o plano terapêutico.

A substituição de prestadores não hospitalares deve preservar a equivalência assistencial. A RN 567/2022 trata da substituição de prestadores de serviços de atenção à saúde não hospitalares e exige substituição por prestador equivalente.

Além disso, quando a rede não consegue garantir atendimento adequado, aplica-se a lógica da garantia de atendimento da RN 566/2022. A operadora continua responsável por assegurar o acesso à cobertura contratada.

Portanto, a questão não é apenas se a empresa saiu da rede. A questão principal é se o paciente continuará recebendo o cuidado necessário, sem interrupção ou redução indevida.

Por que o descredenciamento de home care é diferente?

O home care envolve risco assistencial maior do que a troca comum de prestador.

Quando uma clínica é descredenciada, pode haver atraso de consulta ou sessão. Isso também pode ser grave. Mas, no home care, a empresa muitas vezes executa cuidados contínuos dentro da casa do paciente.

A equipe pode prestar enfermagem, administrar medicamentos, realizar curativos, acompanhar dieta enteral, controlar oxigênio, fazer aspiração, monitorar sinais clínicos e coordenar terapias domiciliares.

Além disso, a empresa pode fornecer equipamentos e insumos que mantêm o paciente em segurança.

Por isso, a troca precisa ser planejada.

Não é aceitável que uma empresa saia em um dia e a nova empresa só consiga assumir depois, deixando o paciente sem equipe, sem materiais ou sem suporte.

A transição precisa ser segura, documentada e compatível com a prescrição médica.

O plano pode trocar a empresa sem avisar?

A troca sem aviso pode ser abusiva quando surpreende a família e coloca o paciente em risco.

O beneficiário ou responsável precisa saber quando a empresa deixará de prestar o serviço, qual empresa assumirá, quais profissionais comparecerão, quais equipamentos serão substituídos, como os insumos serão entregues e quem será responsável por intercorrências.

A comunicação deve ser clara.

Em home care, a falta de informação pode gerar insegurança concreta. A família precisa se organizar, receber a nova equipe, confirmar escala, conferir materiais e garantir que não haverá descontinuidade.

Se o plano não comunica adequadamente, não apresenta plano de transição ou não garante substituição efetiva, a conduta pode ser questionada.

Leia também: descredenciamento sem aviso prévio: é ilegal?.

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O que é empresa de home care substituta equivalente?

Empresa substituta equivalente é aquela que consegue assumir o atendimento domiciliar com a mesma capacidade assistencial necessária ao paciente.

A equivalência não se limita a dizer que a nova empresa também presta home care.

É preciso verificar se ela consegue fornecer exatamente o que foi prescrito.

A nova empresa tem equipe de enfermagem na escala indicada?

Fornece fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional ou nutrição, se prescritas?

Entrega dieta, medicamentos, curativos, fraldas, sondas, materiais e insumos necessários?

Disponibiliza cama hospitalar, oxigênio, aspirador, bomba de infusão, cadeira de rodas ou outros equipamentos?

Tem profissionais capacitados para o quadro clínico do paciente?

Consegue assumir sem lacuna entre a saída de uma empresa e a entrada da outra?

Tem canal de intercorrência e supervisão adequada?

Se a resposta for negativa para pontos essenciais, a substituição pode ser inadequada.

Leia também: plano deve oferecer prestador substituto equivalente?.

A nova empresa pode reduzir equipe, horas ou insumos?

Não deve reduzir se a prescrição médica continua indicando a mesma necessidade.

O descredenciamento não pode servir como pretexto para rebaixar o home care.

Se o paciente tinha enfermagem 24 horas, fisioterapia diária, fonoaudiologia, dieta, oxigênio e materiais específicos, a nova empresa deve manter o que for clinicamente necessário.

A operadora não pode substituir a empresa e, ao mesmo tempo, diminuir a assistência sem justificativa médica adequada.

Reduções como troca de enfermagem 24 horas por visita pontual, retirada de fisioterapia, diminuição de fonoaudiologia, corte de insumos ou recolhimento de equipamentos podem configurar interrupção ou rebaixamento do tratamento.

Se houver divergência sobre a necessidade do home care, o relatório do médico assistente deve ser valorizado, especialmente quando descreve riscos concretos da redução.

E se o paciente depende de enfermagem 24 horas?

A enfermagem contínua é uma das situações mais sensíveis.

Quando o médico prescreve enfermagem 24 horas, normalmente existe risco assistencial relevante, como necessidade de monitoramento, aspiração, medicação, cuidados com sonda, risco respiratório, risco de broncoaspiração, curativos complexos ou dependência elevada.

Se a empresa é descredenciada, a operadora precisa garantir que a nova equipe assuma sem intervalo.

Uma lacuna de algumas horas pode ser grave, dependendo do caso.

A família deve pedir escala da nova equipe, nome da empresa, data de início, responsáveis técnicos e confirmação de que a cobertura prescrita será mantida.

Se o plano não garante a substituição, pode haver fundamento para medida urgente.

E se houver equipamentos ou insumos fornecidos pela empresa anterior?

A troca da empresa não pode deixar o paciente sem equipamentos ou insumos essenciais.

É comum que a empresa de home care forneça cama hospitalar, oxigênio, aspirador, bomba de infusão, suporte de soro, dieta, sondas, fraldas, luvas, curativos, medicamentos e outros materiais.

Se a empresa anterior recolhe equipamentos antes de a nova fornecer substitutos, o paciente pode ficar em risco.

A transição deve ser coordenada.

O plano deve garantir que nenhum item essencial seja retirado sem reposição adequada.

A família deve fotografar os equipamentos, guardar listas de materiais, registrar datas de entrega e recolhimento, e pedir confirmação por escrito da nova empresa.

A operadora pode trocar home care por internação hospitalar?

Depende do caso, mas a troca não pode ser feita de forma arbitrária.

Se o paciente está clinicamente estável em internação domiciliar e a prescrição médica indica home care, a operadora não deve impor retorno ao hospital apenas porque descredenciou a empresa.

A internação hospitalar pode ser mais onerosa, mais invasiva e até mais arriscada para determinados pacientes, especialmente idosos, pacientes frágeis, pessoas com risco infeccioso ou quadros crônicos.

O STJ já reconheceu que a assistência domiciliar não pode ser previamente excluída da cobertura quando houver necessidade comprovada, especialmente quando vinculada à continuidade do tratamento coberto.

Se o médico assistente indica permanência em home care, o plano deve justificar tecnicamente qualquer mudança de modalidade.

A troca da empresa não autoriza a operadora a desmontar o cuidado domiciliar.

O que fazer quando a empresa de home care sai da rede?

O primeiro passo é pedir explicação formal ao plano.

Solicite a data do descredenciamento, o motivo informado, a empresa substituta, a data de início da nova equipe e a confirmação de que todos os serviços serão mantidos.

O segundo passo é pedir plano de transição.

Esse plano deve informar quem assumirá o atendimento, quando a equipe começará, quais equipamentos serão entregues, quais insumos serão fornecidos e como será evitada qualquer lacuna.

O terceiro passo é obter relatório médico atualizado.

O relatório deve explicar o quadro clínico, a necessidade do home care, a modalidade prescrita, a equipe necessária, os equipamentos, os insumos e os riscos da interrupção.

O quarto passo é registrar tudo.

Guarde mensagens, protocolos, e-mails, escalas, fotografias dos equipamentos, listas de materiais, comprovantes de entrega e qualquer informação sobre falha na assistência.

O quinto passo é avaliar medida urgente se houver risco de descontinuidade.

Quando cabe liminar?

Cabe liminar quando o descredenciamento da empresa de home care ameaça interromper ou reduzir a internação domiciliar.

A liminar pode pedir que o plano mantenha a empresa anterior temporariamente, indique empresa equivalente com início imediato, restabeleça equipe, forneça equipamentos, entregue insumos ou custeie empresa particular.

O pedido deve demonstrar urgência.

Em home care, a urgência costuma ser evidente quando há risco de retirada de enfermagem, oxigênio, dieta, equipamentos, medicamentos ou terapias essenciais.

O relatório médico deve ser específico. Ele deve descrever o que o paciente precisa e quais riscos existem se o atendimento for interrompido.

Leia também: liminar para manter atendimento em prestador descredenciado.

O plano pode alegar que home care não é obrigatório?

Essa alegação deve ser analisada com cuidado.

A ANS já registrou, em parecer técnico, que a atenção domiciliar não aparece como cobertura obrigatória geral na Lei 9.656/1998, salvo hipóteses específicas. Mas isso não significa que o plano possa negar home care em todo caso. A própria discussão judicial costuma considerar a prescrição médica, a continuidade do tratamento e a substituição da internação hospitalar por internação domiciliar.

Na prática, muitos tribunais reconhecem a cobertura de home care quando há indicação médica e necessidade comprovada, especialmente quando a internação domiciliar substitui a internação hospitalar.

Por isso, se o paciente já está em home care autorizado, a operadora não pode usar o descredenciamento da empresa para rediscutir tudo de forma abrupta e deixar o paciente sem cuidado.

A discussão principal, nesse cenário, é a continuidade da assistência já implantada.

Leia também: home care pelo plano de saúde ou SUS.

Descredenciamento de home care pode gerar dano moral?

Pode gerar, especialmente quando expõe o paciente a risco.

A retirada ou troca desorganizada da empresa pode causar insegurança, interrupção de cuidados, ausência de enfermagem, falta de oxigênio, falta de insumos, suspensão de terapias ou risco de reinternação.

Nesses casos, o dano moral pode ser discutido porque a falha atinge diretamente a saúde e a dignidade do paciente.

A tese é mais forte quando há paciente idoso, acamado, dependente de equipamentos, pessoa com doença grave, criança, pessoa com deficiência ou paciente em condição clínica frágil.

O dano moral não decorre apenas da troca da empresa. Ele decorre da forma abusiva como a troca é feita e do risco concreto causado ao paciente.

Leia também: descredenciamento abusivo gera dano moral?.

Quais documentos são importantes?

Os documentos mais importantes são aqueles que provam a necessidade do home care e o risco da interrupção.

Reúna relatório médico atualizado, prescrição do home care, plano terapêutico, escala de enfermagem, lista de equipamentos, lista de insumos, evolução da equipe, comprovantes de atendimento e autorizações anteriores.

Também guarde comunicado de descredenciamento, protocolos com o plano, mensagens da empresa, e-mails, notificações, fotografias dos equipamentos, comprovantes de entrega ou retirada de materiais e qualquer prova de falha na transição.

Se a família precisou contratar empresa particular, guarde contrato, notas fiscais, recibos e comprovantes de pagamento.

Leia também: documentos necessários para ação por descredenciamento.

Conclusão

O plano de saúde pode alterar a empresa de home care, mas não pode interromper, reduzir ou desorganizar a internação domiciliar em andamento.

A substituição deve ser segura, planejada e equivalente.

A nova empresa precisa assumir o atendimento sem lacuna, com equipe, equipamentos, insumos e terapias compatíveis com a prescrição médica.

Se a troca coloca o paciente em risco, reduz enfermagem, suspende equipamentos, atrasa insumos ou interrompe terapias, o descredenciamento pode ser abusivo.

Em situações urgentes, pode ser possível pedir liminar para manter a empresa anterior, exigir substituição equivalente, restabelecer serviços ou obter custeio fora da rede.

No home care, a pergunta central não é apenas se a empresa mudou. A pergunta é se o paciente continuará seguro dentro de casa.

ESTE ARTIGO FAZ PARTE DO GUIA DE DESCREDENCIAMENTO PELO PLANO DE SAÚDE

Principal do Bloco 2
Plano pode descredenciar prestador durante tratamento contínuo?

Entenda quando a retirada de clínica, médico, terapeuta, hospital ou empresa de home care pode interromper tratamento em andamento e como proteger a continuidade assistencial.

Ler o artigo principal deste bloco
Guia principal
Descredenciamento pelo plano de saúde

Acesse o guia central do cluster para entender aviso prévio, rede substituta equivalente, tratamento contínuo, dano moral, liminar e documentos necessários para contestar descredenciamento abusivo.

Acessar o guia completo

Perguntas frequentes sobre descredenciamento de home care pelo plano de saúde

Entenda seus direitos quando a empresa de internação domiciliar sai da rede durante o atendimento.

O plano pode descredenciar a empresa de home care?

Pode alterar a rede em algumas situações, mas não pode interromper a internação domiciliar nem deixar o paciente sem equipe, equipamentos, insumos ou terapias necessárias.

A nova empresa precisa oferecer o mesmo atendimento?

Precisa oferecer atendimento equivalente ao que for clinicamente necessário. Deve manter equipe, carga horária, equipamentos, insumos e terapias prescritas, salvo justificativa médica adequada.

O plano pode reduzir enfermagem 24 horas após trocar a empresa?

Não deve reduzir se a prescrição médica continua indicando enfermagem 24 horas. O descredenciamento não pode ser usado para rebaixar o tratamento.

E se a empresa anterior retirar equipamentos antes da nova chegar?

Isso pode colocar o paciente em risco. O plano deve coordenar a transição para que nenhum equipamento ou insumo essencial seja retirado sem reposição adequada.

Posso pedir para manter a empresa descredenciada?

Pode ser possível quando a troca ameaça a continuidade do atendimento ou quando a nova empresa não consegue assumir com segurança. O pedido deve ser sustentado por relatório médico e prova do risco.

O plano pode trocar home care por internação hospitalar?

Não de forma arbitrária. Se o médico indica home care e o paciente está estável em internação domiciliar, a operadora deve justificar tecnicamente qualquer mudança de modalidade.

Quando cabe liminar?

Cabe liminar quando há risco de interrupção ou redução do home care, retirada de enfermagem, suspensão de equipamentos, falta de insumos ou ameaça à segurança do paciente.

Quais documentos guardar?

Relatório médico, prescrição do home care, escala de enfermagem, lista de equipamentos e insumos, autorizações anteriores, comunicado de descredenciamento, protocolos, mensagens, fotos dos equipamentos e provas de falha na transição.

!Vigência das informações

O conteúdo deste artigo reflete a situação jurídica vigente na data de sua publicação original: junho de 2026. Alterações legislativas, normativas ou jurisprudenciais posteriores podem impactar as informações aqui apresentadas.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui a análise jurídica individualizada. A leitura do artigo não configura consultoria jurídica nem estabelece relação advogado-cliente. Cada caso possui particularidades próprias que exigem uma análise individualizada a ser realizada por advogado de sua confiança.

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Evilasio Tenorio, advogado especialista em Direito da Saúde e Direito Médico

Evilasio Tenorio

Advogado líder · OAB/PE 31.019 · LL.M. em Direito Médico e da Saúde (UNICAP)

Fundador do TSA | Tenorio da Silva Advocacia, com mais de 15 anos de atuação em Direito da Saúde, Direito Médico, Direito Civil e Direitos da Pessoa com Deficiência. Representa pacientes em ações contra planos de saúde e contra o SUS para acesso a medicamentos de alto custo, cirurgias, exames, home care, terapias para autismo e tratamentos oncológicos, e atua na defesa de médicos, clínicas e profissionais da saúde. Coautor de livros jurídicos pela Editora Foco e membro da Comissão de Direito e Saúde da OAB/PE.

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