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ARTIGO | DIREITO DA SAÚDE | LEITURA: 7 MINUTOS

Laudo de ludopatia: quem pode emitir, o que deve constar e como usar no processo

Saiba quem pode emitir o laudo de ludopatia, o que o documento precisa conter para ter valor judicial e como ele é usado na ação contra a plataforma de apostas.
Evilasio Tenorio
OAB/PE 31.019 · LL.M. em Direito Médico e da Saúde (UNICAP)

Resumo do artigo

O laudo de ludopatia deve ser emitido preferencialmente por médico psiquiatra, conter o código diagnóstico CID-11 6C50, descrever os critérios clínicos que sustentam o diagnóstico, indicar o período de instalação do transtorno e registrar o impacto funcional na vida do paciente. Sem essas informações, o documento tem valor probatório reduzido no processo judicial contra a plataforma de apostas.

!Atenção: procure ajuda profissional antes de buscar reparação judicial

Antes de buscar na Justiça a devolução dos valores perdidos ou uma indenização, é importante que você procure um médico ou psicólogo para confirmar o diagnóstico de Ludopatia. O laudo que será emitido ajudará você a comprovar que as apostas estavam relacionadas a um transtorno compulsivo e que houve ligação entre a doença, a atuação da plataforma e os prejuízos sofridos. Sem o laudo ou um acompanhamento profissional, a ação judicial ficará mais frágil.

Introdução

O laudo de ludopatia é o documento clínico que comprova o transtorno do jogo compulsivo para fins judiciais. Sem ele, não há como distinguir juridicamente o apostador compulsivo do apostador casual, e a ação contra a plataforma de apostas não tem base.

A Lei 14.790/2023 exige expressamente que o diagnóstico de ludopatia seja feito por profissional de saúde mental habilitado. Isso significa que nem todo documento clínico tem o mesmo peso. O laudo precisa atender a requisitos específicos para ser aceito pelo juiz como prova suficiente do transtorno.

Este artigo explica quem pode emitir o laudo, o que ele precisa conter, como obtê-lo pelo SUS ou na rede particular e como ele funciona dentro do processo judicial.

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Quem pode emitir o laudo de ludopatia?

O laudo de ludopatia deve ser emitido por médico psiquiatra ou psicólogo clínico habilitado. Os dois profissionais têm competências distintas e funções complementares no conjunto probatório.

O médico psiquiatra é o profissional com maior peso probatório para fins judiciais. É o único habilitado a fechar o diagnóstico clínico com base nos critérios do DSM-5 e da CID-11, prescrever medicação quando necessário e atestar formalmente a condição de ludopatia com respaldo médico-legal. O laudo psiquiátrico é o que a Lei 14.790/2023 exige ao se referir a “profissional de saúde mental habilitado”.

O psicólogo clínico emite relatório psicológico, documento que descreve o comportamento compulsivo, o impacto funcional na vida do paciente e a evolução do quadro ao longo do acompanhamento. Esse documento não substitui o laudo psiquiátrico, mas o complementa de forma relevante, especialmente quando o acompanhamento psicológico foi iniciado antes da avaliação psiquiátrica.

A combinação dos dois documentos forma o conjunto probatório mais robusto. Quando há apenas o relatório psicológico sem laudo psiquiátrico, o caso pode ser fragilizado pela defesa da plataforma, que tende a questionar a validade diagnóstica do documento.

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O que o laudo deve conter para ter valor judicial?

Um laudo de ludopatia com valor probatório adequado para o processo judicial precisa responder a cinco perguntas fundamentais.

1. Quem é o paciente e qual é o diagnóstico?
O laudo deve identificar o paciente pelo nome completo, CPF e data de nascimento, e registrar o diagnóstico formal com o código CID-11 6C50 (Transtorno de Jogo) e, quando aplicável, o código equivalente do DSM-5. A ausência do código diagnóstico é o erro mais comum e o que mais fragiliza o documento.

2. Quais critérios clínicos sustentam o diagnóstico?
O laudo deve descrever os critérios observados: necessidade de apostar valores crescentes, tentativas frustradas de parar, comportamento de caça ao prejuízo, impacto nos relacionamentos e nas finanças, padrão de frequência e intensidade das apostas. Quanto mais específica for essa descrição, mais difícil será para a plataforma contestar o documento.

3. Desde quando o transtorno está instalado?
Este é o dado mais importante para o processo. O laudo deve indicar, com base na anamnese e no histórico clínico, o período provável de início do transtorno. Esse dado é o que permite ao juiz reconhecer que a condição estava presente durante o período das apostas, mesmo que o diagnóstico formal tenha sido fechado depois.

4. Qual é o impacto funcional na vida do paciente?
O laudo deve registrar como o transtorno afetou a vida da pessoa: endividamento, comprometimento de relacionamentos, afastamento do trabalho, impacto na saúde mental, uso de empréstimos para sustentar as apostas. Esses elementos sustentam tanto o pedido de restituição dos danos materiais quanto o eventual pedido de danos morais.

5. O profissional acompanha o paciente há quanto tempo?
Um laudo emitido após uma única consulta tem peso probatório menor do que um laudo que reflete acompanhamento de meses. Plataformas de apostas costumam questionar documentos expedidos de forma apressada. O histórico de consultas documentado reforça a credibilidade do laudo.

Como obter o laudo pelo SUS?

Os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) atendem casos de transtornos relacionados ao jogo sem necessidade de encaminhamento prévio. O paciente pode se apresentar diretamente com relato do comportamento compulsivo e solicitar avaliação psiquiátrica.

O processo pelo SUS tende a ser mais lento do que na rede particular. Em casos em que há urgência para o ajuizamento da ação, essa diferença de tempo pode ser relevante. O Ministério da Saúde publicou em 2026 um guia de cuidado específico para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas, disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/guias-e-manuais/2026/guia-de-cuidado-para-pessoas-com-problemas-relacionados-a-jogos-de-apostas.pdf, com orientações sobre os serviços de saúde mental disponíveis na rede pública.

O laudo emitido por profissional do serviço público tem fé pública e valor probatório equivalente ao laudo particular. A origem pública do documento não o fragiliza.


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Como obter o laudo na rede particular?

Na rede particular, a avaliação psiquiátrica para diagnóstico de ludopatia pode ser feita com especialistas em transtornos do impulso ou do controle comportamental. Consultas particulares tendem a ter prazo menor e permitem agendar reavaliações com mais flexibilidade.

Um ponto relevante: laudos emitidos por telemedicina são válidos conforme resolução do Conselho Federal de Medicina. Para fins judiciais, exames presenciais tendem a passar mais credibilidade ao juiz, mas a modalidade remota não invalida o documento.

Independentemente da origem, o laudo deve ser emitido em papel timbrado do profissional ou da clínica, com assinatura, número de registro no CRM ou CRP, data de emissão e carimbo. Documentos sem esses elementos formais são mais facilmente contestados.

Como o laudo é usado dentro do processo judicial?

O laudo é o documento que sustenta o fundamento jurídico central da ação: a nulidade das apostas com base no art. 26, VI da Lei 14.790/2023.

Ele é juntado com a petição inicial, junto aos extratos bancários e da plataforma que demonstram o dano material. O conjunto desses documentos compõe o que os tribunais chamam de prova documental robusta, que já foi suficiente para fundamentar decisões de restituição nos casos do TJDFT, TJSC e TJRS julgados em 2025 e 2026.

Um ponto crítico: a plataforma vai contestar o laudo. Os argumentos defensivos mais comuns são que o diagnóstico foi feito depois das apostas, que o laudo foi emitido em consulta única ou que o paciente não informou o transtorno ao se cadastrar. Laudos com histórico clínico documentado, critérios descritos com precisão e indicação do período de início do transtorno resistem melhor a esses questionamentos.

Conclusão

O laudo de ludopatia é o ponto de partida insubstituível da ação contra a plataforma de apostas. Sem ele, a perda financeira permanece como risco assumido pelo apostador. Com ele, e desde que contenha os elementos essenciais, ele transforma o caso num fundamento jurídico reconhecido pelos tribunais.

A qualidade do laudo importa tanto quanto sua existência. Um documento completo, com código diagnóstico, critérios clínicos descritos, indicação do período do transtorno e registro do impacto funcional é o que separa um caso sólido de um caso frágil.

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Perguntas frequentes

Laudo de ludopatia: quem pode emitir, o que deve constar e como usar no processo

Quem pode emitir o laudo de ludopatia?

O laudo deve ser emitido preferencialmente por médico psiquiatra, que é o profissional habilitado para o diagnóstico clínico com base nos critérios do DSM-5 e da CID-11. O psicólogo clínico pode emitir relatório psicológico complementar, mas esse documento não substitui o laudo psiquiátrico para fins judiciais.

O laudo precisa ter o código CID-11?

Sim. O laudo de ludopatia deve conter o código diagnóstico CID-11 6C50 (Transtorno de Jogo). A ausência do código diagnóstico é o erro mais comum e o que mais fragiliza o documento em juízo.

O laudo pode ser emitido depois das apostas?

Sim. O que importa é que o laudo indique, com base no histórico clínico, o período de início do transtorno. Tribunais como o TJDFT já decidiram que a data do diagnóstico formal não determina quando a doença começou.

Uma única consulta é suficiente para o laudo?

Pode ser, mas laudos que refletem acompanhamento de meses têm peso probatório maior. Plataformas de apostas costumam questionar documentos expedidos após uma única avaliação.

Como obter o laudo pelo SUS?

Os CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) atendem casos de transtornos relacionados ao jogo sem necessidade de encaminhamento prévio. O laudo emitido por profissional do serviço público tem valor probatório equivalente ao laudo particular.

Laudo feito por telemedicina vale para o processo?

Sim, o Conselho Federal de Medicina reconhece a telemedicina. Para fins judiciais, consultas presenciais tendem a ter maior credibilidade perante o juiz, mas o laudo remoto não é inválido.

O que acontece se a plataforma contestar o laudo?

A contestação do laudo é prática comum na defesa das bets. Laudos com histórico clínico documentado, critérios descritos com precisão e indicação do período de início do transtorno resistem melhor a esses questionamentos.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui a análise jurídica individualizada. A leitura do artigo não configura consultoria jurídica nem estabelece relação advogado-cliente. Cada caso possui particularidades próprias que exigem uma análise individualizada a ser realizada por advogado de sua confiança.

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Evilasio Tenorio

Advogado líder · TSA Advocacia

Evilasio Tenorio é advogado inscrito na OAB/PE 31.019, fundador do TSA | Tenorio da Silva Advocacia, com mais de 15 anos de atuação. Atua de forma especializada em Direito da Saúde, Direito Médico, Direito Civil e Direitos da Pessoa com Deficiência, com formação complementar em Planos de Saúde. Representa pacientes em ações contra planos de saúde e contra o SUS para acesso a medicamentos de alto custo, cirurgias, exames, home care, terapias para autismo, tratamentos oncológicos e demais procedimentos negados. Também atua na defesa de médicos, clínicas e profissionais da saúde. É coautor de livros jurídicos publicados pela Editora Foco, membro da Comissão de Direito e Saúde da OAB/PE e do Instituto Miguel Kfouri Neto. Atende clientes presencialmente em Recife/PE e em todo o Brasil pela internet.

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O TSA | Tenorio da Silva Advocacia é um escritório especializado em Direito da Saúde e Direito Médico, com sede em Recife e atendimento em todo o Brasil. Atua em ações contra planos de saúde e o SUS nos casos de negativa de cobertura, medicamentos de alto custo, cirurgia robótica, quimioterapia, home care, autismo e doenças raras.

O escritório é fundado e liderado pelo advogado Evilasio Tenorio, inscrito na OAB/PE sob o número 31.019. Possui LL.M. em Direito Médico e da Saúde pela Unicap, especializações pela FMP e pelo CBI of Miami, e é membro da Comissão de Direito e Saúde da OAB/PE, da AASP, da ABA e do Instituto Miguel Kfouri Neto (IKMN).

O atendimento inicial é realizado presencialmente, por videoconferência ou WhatsApp, sem necessidade de deslocamento. Pacientes em Pernambuco, no Nordeste e em todo o Brasil podem iniciar o processo de forma simples e rápida, com análise da sua situação e da documentação médica já na primeira conversa.

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