ARTIGO | DIREITO DA SAÚDE | LEITURA: 10 MINUTOS

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Evilasio Tenorio
OAB/PE 31.019 · Advogado especialista em Direito Médico e da Saúde. Co-autor de livros jurídicos.

Resumo do artigo

A cirurgia robótica para endometriose pode ser indicada quando a doença atinge regiões profundas da pelve, exigindo maior precisão para reduzir riscos durante o procedimento. No entanto, planos de saúde frequentemente negam a cobertura, alegando que a técnica robótica não está prevista no rol da ANS ou que a cirurgia poderia ser realizada por métodos convencionais. A negativa pode ser considerada abusiva se não houver justificativa técnica individualizada, especialmente quando o médico assistente indica a via robótica como a mais segura para o caso específico, considerando a complexidade da endometriose profunda e os riscos associados.

Introdução

A cirurgia robótica para endometriose pode ser indicada quando a doença atinge regiões profundas da pelve, envolve órgãos próximos ou exige maior precisão para reduzir riscos durante o procedimento.

A negativa do plano de saúde costuma ocorrer quando a operadora afirma que a técnica robótica não está prevista no rol da ANS, que não há cobertura contratual para robótica ou que a cirurgia poderia ser realizada por via convencional.

Essas justificativas não devem ser aceitas automaticamente.

Quando o médico assistente explica que a via robótica é necessária para maior segurança, melhor visualização, menor risco de lesão de órgãos próximos ou abordagem adequada da endometriose profunda, a recusa pode ser abusiva.

Este artigo aprofunda uma situação específica dentro do tema tratado no guia sobre cirurgia robótica pelo plano de saúde.

O que é endometriose profunda?

A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que tecido semelhante ao endométrio se desenvolve fora da cavidade uterina.

Em muitos casos, a doença causa dor pélvica intensa, cólicas incapacitantes, dor nas relações sexuais, alterações intestinais, alterações urinárias, infertilidade e perda importante de qualidade de vida.

A endometriose profunda ocorre quando as lesões infiltram tecidos e estruturas da pelve, podendo atingir ligamentos uterossacros, septo retovaginal, intestino, bexiga, ureteres, ovários e outras regiões próximas.

Esse tipo de endometriose pode tornar a cirurgia mais complexa, porque a pelve é uma região estreita, com órgãos muito próximos entre si.

Por isso, a escolha da técnica cirúrgica pode ser decisiva para reduzir riscos e permitir tratamento adequado.

Por que a cirurgia robótica pode ser indicada para endometriose?

A cirurgia robótica pode ser indicada em casos de endometriose quando há necessidade de maior precisão cirúrgica.

Em endometriose profunda, o cirurgião pode precisar atuar próximo ao intestino, bexiga, ureteres, vasos, nervos e estruturas reprodutivas.

A técnica robótica pode oferecer melhor visualização da região operada, movimentos mais precisos e maior controle em áreas de difícil acesso.

Isso pode ser relevante para reduzir risco de sangramento, lesão intestinal, lesão urinária, lesão ureteral, conversão para cirurgia aberta e complicações pós-operatórias.

A robótica não deve ser tratada como simples conforto ou escolha estética. Em determinados casos, ela pode ser a via mais segura para a paciente.

O plano de saúde pode negar cirurgia robótica para endometriose?

O plano de saúde não pode negar a cirurgia robótica para endometriose de forma automática.

A operadora pode analisar a solicitação, mas não pode substituir a indicação do médico assistente por uma recusa administrativa genérica.

Se a endometriose tem cobertura, se a cirurgia foi indicada e se o médico justificou a necessidade da via robótica, a negativa precisa ser analisada com cautela.

A discussão não deve ser reduzida ao nome da tecnologia. O ponto principal é saber se a técnica robótica foi prescrita como meio necessário ou mais seguro para tratar uma doença coberta pelo plano.

Quando a operadora aceita a necessidade da cirurgia, mas nega apenas a técnica robótica sem enfrentar os riscos do caso concreto, a recusa se torna juridicamente frágil.

A ausência no rol da ANS não basta para negar a cirurgia robótica

Uma das justificativas mais comuns é a alegação de que a cirurgia robótica para endometriose não estaria prevista de forma expressa no rol da ANS.

Esse argumento, sozinho, não encerra a discussão.

O rol da ANS estabelece uma referência mínima de cobertura, mas não deve ser utilizado como autorização automática para negar tratamento necessário.

Além disso, a Lei nº 14.454/2022 alterou a Lei dos Planos de Saúde para permitir a discussão de cobertura de procedimentos não previstos expressamente no rol, desde que preenchidos critérios técnicos, científicos e médicos.

Em muitos casos, a cirurgia para tratamento da endometriose tem cobertura. A controvérsia surge porque a operadora nega a via robótica, embora ela tenha sido indicada pelo médico como a forma mais segura de realizar o procedimento.

Por isso, a pergunta correta não é apenas se a robótica está escrita no rol. A pergunta correta é se existe indicação médica fundamentada para aquela técnica naquele caso concreto.

Quando a negativa tende a ser abusiva?

A negativa tende a ser abusiva quando a operadora recusa a cirurgia robótica sem apresentar justificativa técnica individualizada.

A discussão se fortalece quando a paciente tem endometriose profunda, lesões em região de difícil acesso, acometimento intestinal, acometimento urinário, risco de lesão de ureter, risco de sangramento, aderências importantes ou histórico de cirurgias anteriores.

Também é relevante quando o médico informa que a via robótica pode reduzir riscos, melhorar a precisão cirúrgica, preservar estruturas próximas ou evitar maior agressividade no procedimento.

A negativa também se torna frágil quando utiliza expressões padronizadas, como “procedimento sem cobertura”, “não previsto no rol” ou “tecnologia não obrigatória”, sem enfrentar o relatório médico.

A operadora não pode transformar uma discussão assistencial em uma simples recusa por custo.

A operadora pode impor laparoscopia convencional ou cirurgia aberta?

A operadora não deve impor outra técnica cirúrgica de forma automática quando o médico assistente justificou a necessidade da via robótica.

A existência de laparoscopia convencional ou cirurgia aberta não significa que essas técnicas sejam igualmente adequadas para todos os casos de endometriose.

Em endometriose profunda, a complexidade pode variar muito. Uma paciente pode ter lesões superficiais, enquanto outra pode apresentar acometimento intestinal, urinário, aderências extensas ou risco elevado de complicações.

Por isso, a comparação entre técnicas precisa considerar o caso concreto.

Se o médico demonstra que a robótica oferece maior segurança para aquela paciente, a operadora não pode simplesmente escolher a alternativa mais barata.

Endometriose intestinal, urinária e lesões profundas exigem maior cuidado

A indicação da cirurgia robótica ganha força quando a endometriose envolve estruturas delicadas.

Na endometriose intestinal, pode haver lesões próximas ao reto, sigmoide ou outras porções do intestino. Em alguns casos, a cirurgia exige dissecção cuidadosa, retirada de lesões profundas ou abordagem conjunta com especialista em cirurgia do aparelho digestivo.

Na endometriose urinária, pode haver acometimento de bexiga ou ureteres. Essas situações exigem atenção especial porque lesões urinárias podem gerar complicações importantes.

Também existem casos em que a doença compromete ligamentos, septo retovaginal, ovários, nervos pélvicos e regiões de difícil acesso.

Nesses cenários, a precisão cirúrgica pode ser elemento central da segurança da paciente.

O plano pode dizer que a cirurgia robótica é experimental?

A alegação de experimentalidade precisa ser analisada com cautela.

A operadora não pode afirmar genericamente que a cirurgia robótica é experimental apenas porque a técnica é moderna ou tem custo elevado.

A cirurgia robótica é utilizada em diferentes especialidades cirúrgicas, inclusive em procedimentos pélvicos de maior complexidade.

Quando a técnica é indicada por especialista, vinculada a procedimento coberto e justificada por critérios de segurança, a negativa baseada em experimentalidade perde força.

O debate deve ser técnico e individualizado. Não basta usar a palavra “experimental” como justificativa para impedir o tratamento.

Quais documentos são importantes para contestar a negativa?

A paciente deve reunir documentos médicos e administrativos que demonstrem a necessidade da cirurgia e a conduta do plano de saúde.

O principal documento é o relatório médico detalhado, com diagnóstico, CID, histórico clínico, sintomas, exames relevantes e indicação expressa da cirurgia robótica.

Também são importantes os exames de imagem, como ressonância magnética de pelve com protocolo para endometriose, ultrassonografia especializada, tomografia ou outros exames que demonstrem a extensão da doença.

A paciente também deve guardar o pedido cirúrgico, a negativa formal do plano, o protocolo de atendimento, a carteirinha, o contrato ou comprovante de vínculo com o plano e os comprovantes de pagamento, quando necessário.

A negativa formal é relevante porque permite verificar exatamente qual foi o motivo utilizado pela operadora para recusar a cobertura.

O que deve constar no relatório médico?

O relatório médico deve ser claro, técnico e específico.

Ele deve indicar o diagnóstico de endometriose, a localização das lesões, os sintomas da paciente, os exames que confirmam a doença e a cirurgia indicada.

Também deve explicar por que a técnica robótica é necessária ou mais segura do que a cirurgia aberta ou a laparoscopia convencional.

Quando houver acometimento intestinal, urinário, aderências, risco de lesão ureteral, risco de sangramento, dor incapacitante, infertilidade ou risco de perda funcional, esses pontos devem estar expressamente descritos.

O relatório não deve apenas afirmar que a robótica é melhor. Ele deve explicar por que ela é necessária para aquela paciente.

Quanto mais concreta for a justificativa médica, maior a força da discussão contra a negativa do plano.

É possível conseguir liminar para cirurgia robótica de endometriose?

Sim, é possível pedir liminar quando a negativa coloca a saúde da paciente em risco ou quando a demora pode causar agravamento.

A liminar é uma decisão de urgência. Ela pode obrigar o plano de saúde a autorizar e custear a cirurgia antes do final do processo.

Para isso, é necessário demonstrar a probabilidade do direito e a urgência.

A probabilidade do direito costuma ser demonstrada pela prescrição médica, pelos exames, pela cobertura da doença e pela fragilidade da negativa.

A urgência pode estar ligada à dor intensa, limitação funcional, risco de progressão da doença, comprometimento intestinal ou urinário, infertilidade, sangramentos, piora clínica ou sofrimento relevante pela demora no tratamento.

Cada caso precisa ser avaliado a partir dos documentos médicos disponíveis.

A ação pode incluir equipe médica, hospital e materiais?

Sim.

A depender do caso, a ação pode pedir a cobertura da cirurgia robótica e de todos os itens necessários para sua realização.

Isso pode incluir hospital, equipe médica, honorários cirúrgicos, anestesia, instrumentação, materiais, internação, taxas hospitalares e demais itens vinculados ao procedimento.

Em casos de endometriose profunda, a cirurgia pode exigir equipe multidisciplinar, como ginecologista, coloproctologista, urologista ou outros especialistas.

A operadora não pode autorizar a cirurgia de forma incompleta, retirando itens indispensáveis e inviabilizando a realização prática do procedimento.

A paciente deve pagar a cirurgia e pedir reembolso depois?

Essa decisão exige cautela.

Em alguns casos, a paciente paga a cirurgia por urgência e depois busca o reembolso. Em outros, ajuíza a ação antes do procedimento para tentar obter liminar.

O melhor caminho depende da urgência médica, do valor da cirurgia, do prazo clínico, da documentação disponível e do risco de agravamento.

Como a cirurgia robótica costuma ter custo elevado, antecipar o pagamento pode ser inviável para muitas pacientes.

Por isso, quando há indicação médica fundamentada e negativa abusiva, a medida judicial pode buscar a autorização direta do procedimento pelo plano de saúde.

Conclusão

A negativa de cirurgia robótica para endometriose não deve ser aceita de forma automática.

Quando o médico assistente demonstra que a técnica robótica é necessária para tratar endometriose profunda, lesões em região delicada ou doença com risco de lesão de órgãos próximos, a operadora não pode responder apenas com uma negativa genérica.

O ponto decisivo é a prova médica.

Relatório detalhado, exames de imagem, pedido cirúrgico e negativa formal são documentos fundamentais para avaliar a abusividade da recusa.

A cirurgia robótica pode ser relevante em casos de endometriose intestinal, urinária, profunda, aderencial ou de maior complexidade cirúrgica.

Se houver indicação médica fundamentada e urgência, é possível discutir judicialmente a cobertura e pedir liminar para obrigar o plano a custear o procedimento.

Para uma visão mais ampla sobre o tema, leia também o guia sobre cirurgia robótica pelo plano de saúde.

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Perguntas frequentes sobre cirurgia robótica para endometriose pelo plano de saúde

Veja respostas objetivas para as principais dúvidas sobre negativa de cirurgia robótica para endometriose.

O plano de saúde deve cobrir cirurgia robótica para endometriose?

Pode ser obrigado a cobrir quando a endometriose é coberta, a cirurgia foi indicada e o médico justifica que a via robótica é necessária ou mais segura para o caso concreto.

O plano pode negar porque a cirurgia robótica não está no rol da ANS?

A ausência expressa no rol não encerra a discussão. Se houver indicação médica fundamentada, doença coberta e justificativa técnica, a negativa pode ser contestada.

Endometriose profunda fortalece o pedido de cirurgia robótica?

Sim. Quando há endometriose profunda, intestinal, urinária, aderencial ou localizada em região delicada, a necessidade de maior precisão cirúrgica pode fortalecer a indicação da técnica robótica.

A operadora pode impor laparoscopia convencional?

Não deve impor outra técnica de forma automática quando o médico assistente justificou que a via robótica é mais segura ou necessária para aquela paciente.

O que deve constar no relatório médico?

O relatório deve indicar diagnóstico, localização das lesões, exames, sintomas, riscos da técnica convencional e justificativa para a cirurgia robótica.

Preciso da negativa formal do plano?

Sim. A negativa formal, com data, protocolo e motivo da recusa, é importante para demonstrar a conduta da operadora.

É possível conseguir liminar?

Sim. Quando há urgência, dor intensa, risco de agravamento, acometimento intestinal ou urinário ou prejuízo pela demora, pode ser possível pedir liminar.

A ação pode incluir equipe multidisciplinar?

Sim. Em casos de endometriose profunda, a ação pode incluir a cobertura de equipe, hospital, materiais, anestesia, internação e demais itens necessários à realização da cirurgia.

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Evilasio Tenorio, advogado especialista em Direito da Saúde e Direito Médico

Evilasio Tenorio

Advogado líder · OAB/PE 31.019 · LL.M. em Direito Médico e da Saúde (UNICAP)

Fundador do TSA | Tenorio da Silva Advocacia, com mais de 15 anos de atuação em Direito da Saúde, Direito Médico, Direito Civil e Direitos da Pessoa com Deficiência. Representa pacientes em ações contra planos de saúde e contra o SUS para acesso a medicamentos de alto custo, cirurgias, exames, home care, terapias para autismo e tratamentos oncológicos, e atua na defesa de médicos, clínicas e profissionais da saúde. Coautor de livros jurídicos pela Editora Foco e membro da Comissão de Direito e Saúde da OAB/PE.

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