Resumo do artigo
Miomas uterinos são tumores benignos comuns que podem exigir tratamento cirúrgico, como a miomectomia, para mulheres que desejam preservar o útero. A escolha da técnica cirúrgica, seja histeroscópica, laparoscópica, robótica ou aberta, depende de fatores como localização e tamanho dos miomas, além do desejo reprodutivo da paciente. A miomectomia robótica não está automaticamente coberta pelos planos de saúde, exigindo, em alguns casos, ação judicial para demonstrar que a videolaparoscopia convencional não é adequada, especialmente em situações de miomas volumosos ou em pacientes com desejo reprodutivo, onde a qualidade da reconstrução uterina é crucial.
Introdução
Os miomas uterinos são os tumores benignos mais comuns do útero, afetando cerca de 70 a 80% das mulheres ao longo da vida reprodutiva. Quando sintomáticos ou relacionados à infertilidade, o tratamento cirúrgico de escolha é a miomectomia, que remove os miomas com preservação do útero. A escolha da via de acesso — histeroscópica, laparoscópica, robótica ou aberta — depende da localização, do número e do tamanho dos miomas, além das condições clínicas e do desejo reprodutivo da paciente.
A miomectomia robótica não está no Rol da ANS e não tem cobertura automática pelos planos de saúde. A obtenção da cobertura depende da via judicial, com demonstração de que a videolaparoscopia convencional — que está no Rol — não é alternativa terapêutica adequada para o caso concreto. Esse argumento não é viável para qualquer mioma: ele tem base clínica sólida em situações específicas, principalmente miomas intramurais volumosos ou em localização que exige sutura miometrial em camadas, e em pacientes com desejo reprodutivo para quem a qualidade da reconstrução uterina tem impacto direto no prognóstico gestacional.
Este artigo explica como os tipos de mioma influenciam o argumento jurídico, o que a literatura científica diz sobre as diferenças entre a robótica e a laparoscopia convencional, e o que o laudo médico precisa conter para sustentar o pedido de cobertura.
Leia também: Cirurgia robótica ginecológica e plano de saúde: o que você precisa saber e O plano pode substituir a cirurgia robótica por uma convencional?.
Conteúdo do artigo
- 1.Introdução
- 2.O que é a miomectomia e quando a via robótica é indicada?
- 3.Por que o plano nega a cobertura da miomectomia robótica?
- 4.Quais características do mioma fortalecem o argumento para a via robótica?
- 5.O que diz a literatura científica sobre a diferença entre as técnicas?
- 6.O que o laudo médico precisa conter para sustentar o pedido?
- 7.Como contestar a negativa do plano de saúde?
- 8.Conclusão
O que é a miomectomia e quando a via robótica é indicada?
A miomectomia é o procedimento cirúrgico que remove os miomas uterinos com preservação do útero. É o tratamento conservador de referência para mulheres com desejo reprodutivo ou que não querem realizar histerectomia. A escolha da via de acesso depende fundamentalmente da classificação dos miomas pela FIGO, sistema internacionalmente adotado que descreve a localização de cada nódulo em relação ao endométrio e ao miométrio, com pontuação de 0 a 8.
Miomas classificados como FIGO 0, 1 e 2 — os submucosos — são tratados preferencialmente por histeroscopia, que não envolve nenhuma técnica robótica e não gera esse tipo de discussão com o plano. Miomas FIGO 3 a 7 — os intramurais e subserosos — são candidatos às vias laparoscópica ou robótica, dependendo das características individuais do caso. É nesse grupo que a via robótica tem indicação mais clara e em que o argumento jurídico tem maior substância clínica.
A robótica é indicada principalmente para miomas intramurais volumosos — especialmente acima de 6 a 8 cm — que exigem múltiplas suturas do miométrio após a remoção; para múltiplos miomas que demandam reconstrução uterina extensa em camadas; para miomas de localização profunda na parede uterina, próximos ao hilo vascular ou ao sistema coletor urinário; e para pacientes com desejo reprodutivo ativo em que a qualidade da sutura miometrial tem impacto direto na integridade da parede uterina para gestações futuras.
Por que o plano nega a cobertura da miomectomia robótica?
Os planos negam a cobertura da miomectomia robótica com dois argumentos. O primeiro é que a via robótica não está no Rol da ANS: a miomectomia consta do Rol pela via videolaparoscópica, não pela robótica. O segundo argumento — o mais relevante juridicamente — é que a videolaparoscopia convencional, já coberta pelo plano, é alternativa terapêutica equivalente.
Esse segundo argumento tem respaldo parcial na jurisprudência: no REsp 2.132.123/SP, julgado pelo STJ em outubro de 2025, a Quarta Turma validou a negativa de cirurgia robótica precisamente porque a operadora já garantia ao paciente técnica convencional com eficácia equivalente. Para a miomectomia, o ponto de tensão é demonstrar quando a laparoscopia convencional deixa de ser equivalente para aquele caso específico.
A resposta está nas características do mioma e nas condições da paciente. Para miomas pequenos, únicos, de localização favorável e em pacientes sem desejo reprodutivo imediato, a laparoscopia convencional pode de fato ser equivalente — e o argumento jurídico fica fragilizado. Para miomas grandes, múltiplos, intramurais profundos ou em pacientes com desejo reprodutivo em que a qualidade da reconstrução uterina é determinante, a laparoscopia convencional tem limitações técnicas documentadas que abrem o espaço para o argumento de ausência de equivalência.
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Quais características do mioma fortalecem o argumento para a via robótica?
Três grupos de características do mioma ou da paciente fortalecem de forma consistente o argumento de ausência de equivalência terapêutica para a via laparoscópica.
O primeiro grupo é o tamanho e a profundidade do mioma. Miomas intramurais (FIGO 3 e 4) com diâmetro acima de 6 a 8 cm exigem, após a remoção, uma reconstrução miometrial em múltiplas camadas de sutura. Na laparoscopia convencional, a sutura intracorpórea em várias camadas de tecido muscular espesso é tecnicamente exigente e dependente da experiência do cirurgião. O sistema robótico, com instrumentos articulados de 7 graus de liberdade de movimento e visão tridimensional ampliada, permite suturas mais precisas, com menor tensão nas bordas e menor risco de deiscência miometrial. Estudos publicados no International Journal of Gynecology & Obstetrics em 2024 confirmaram que a miomectomia robótica apresenta menor taxa de conversão para laparotomia e menor perda sanguínea em comparação com a laparoscópica em miomas de maior volume.
O segundo grupo é a multiplicidade das lesões. Pacientes com múltiplos miomas intramurais exigem várias excisões e várias reconstruções do miométrio no mesmo ato operatório. A fadiga técnica do cirurgião na laparoscopia convencional — com instrumentos rígidos e visão bidimensional — aumenta conforme o número e a complexidade das suturas. A robótica mitiga esse fator ergonômico de forma objetiva, reduzindo o risco de suturas deficientes nas lesões mais tardias do procedimento.
O terceiro grupo é o desejo reprodutivo ativo. Para pacientes que pretendem engravidar, a qualidade da cicatriz miometrial é determinante. Há associação documentada na literatura entre a qualidade da sutura miometrial e as complicações em gestações posteriores, incluindo ruptura uterina — complicação gravíssima associada principalmente a defeitos na reconstrução da parede. Publicação brasileira de 2024 no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences concluiu que a miomectomia robótica oferece suturas mais assertivas, com impacto positivo nas gestações futuras. Para essa paciente, a equivalência clínica entre robótica e laparoscopia convencional não existe — porque o que está em jogo não é apenas a remoção do mioma, mas a integridade da parede uterina para suportar uma ou mais gestações.
O que diz a literatura científica sobre a diferença entre as técnicas?
A revisão sistemática e meta-análise publicada no International Journal of Gynecology & Obstetrics em 2024 — Chen et al. — comparou miomectomia robótica, laparoscópica e abdominal e identificou vantagens consistentes da robótica sobre a aberta em termos de perda sanguínea e taxa de transfusão, com resultados semelhantes à laparoscópica em complicações gerais e taxas de gravidez. A robótica apresentou menor taxa de conversão para laparotomia, especialmente em miomas maiores e em situações de maior complexidade técnica.
A publicação brasileira de 2024 no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences destaca que a localização e o tamanho dos miomas são desafios às técnicas tradicionais, e que a qualidade da cicatriz e o desenvolvimento de aderências impactam diretamente no seguimento de gestações pós-procedimento. O estudo identifica na robótica a vantagem de suturas mais assertivas que impactam nas gravidezes futuras, com redução da morbidade e melhor preservação da fertilidade como principais objetivos da técnica.
Esses dados têm relevância direta para o processo judicial: o quarto critério da ADI 7265 exige comprovação de eficácia e segurança do procedimento com base em evidências científicas de alto grau, preferencialmente ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas ou meta-análises. A existência de meta-análise publicada em 2024 que documenta as diferenças entre as técnicas preenche esse requisito e deve integrar a petição inicial como anexo técnico.
O que o laudo médico precisa conter para sustentar o pedido?
O laudo médico é o documento que determina o desfecho do pedido de cobertura da miomectomia robótica. Para que seja eficaz após a ADI 7265, ele precisa responder objetivamente por que a videolaparoscopia convencional não é alternativa terapêutica adequada para aquela paciente concreta.
Os elementos indispensáveis são seis. Primeiro, a classificação FIGO dos miomas com base na ressonância magnética pélvica ou na ultrassonografia pélvica especializada, com descrição do número, tamanho, localização e profundidade de invasão no miométrio de cada nódulo. Segundo, a descrição do quadro clínico: sintomas, falhas de tratamento clínico prévio, impacto na qualidade de vida e, quando aplicável, histórico de infertilidade ou desejo reprodutivo documentado. Terceiro, a justificativa técnica individualizada: por que aquele conjunto de miomas — com aquele número, tamanho e localização — exige a reconstrução miometrial que a robótica realiza com maior precisão. Quarto, a afirmação expressa de que a laparoscopia convencional não oferece resultado equivalente para o caso concreto, com indicação do aspecto técnico específico que a diferenciam (sutura em múltiplas camadas, complexidade de acesso, risco de deiscência). Quinto, referências a literatura científica que sustente a vantagem clínica da robótica para a indicação descrita — preferencialmente a meta-análise de Chen et al. (2024) ou equivalente. Sexto, quando relevante para o caso, o impacto do desejo reprodutivo da paciente na escolha da técnica e a relação entre qualidade de sutura miometrial e prognóstico gestacional.
Como contestar a negativa do plano de saúde?
Quando o plano nega a miomectomia robótica, o roteiro segue os mesmos passos de qualquer negativa de cirurgia robótica ginecológica, com uma atenção adicional específica para a miomectomia: a documentação imagenológica precisa estar completa antes do ajuizamento.
A ressonância magnética pélvica com protocolo específico para miomas é mais informativa do que a ultrassonografia para caracterizar o número, a localização e a profundidade de cada mioma. Em casos com múltiplos nódulos ou localização intramural profunda, a ressonância é fundamental para que o laudo médico possa individualizar adequadamente a justificativa técnica da robótica.
Após reunir a negativa por escrito, a ressonância magnética e o laudo médico completo, a ação com pedido de tutela de urgência é o caminho mais eficaz. Em casos com sintomas incapacitantes — sangramento volumoso com anemia, dor pélvica intensa — o periculum in mora está presente de forma objetiva e favorece a concessão de liminar. Para o roteiro detalhado de documentos e prazos, consulte o guia sobre o que fazer quando o plano nega a cirurgia robótica.
Uma ressalva importante: nem toda miomectomia robótica tem argumento jurídico viável. Para miomas pequenos, únicos e de localização tecnicamente simples, a laparoscopia convencional é de fato equivalente e o plano tem amparo no REsp 2.132.123/SP para manter a negativa. A avaliação caso a caso — com base nas características concretas do mioma e no quadro clínico da paciente — é o que define se o caso tem sustentação para a via judicial.
Conclusão
A miomectomia robótica pode ser obtida judicialmente quando o caso concreto demonstra que a videolaparoscopia convencional não é alternativa terapêutica equivalente. Os casos com maior sustentação são os de miomas intramurais volumosos que exigem reconstrução miometrial em múltiplas camadas, múltiplos miomas com necessidade de várias suturas complexas, e pacientes com desejo reprodutivo ativo para quem a qualidade da cicatriz miometrial tem impacto direto no prognóstico gestacional.
O argumento jurídico é construído pela combinação de três elementos: a classificação FIGO do mioma, a justificativa técnica individualizada no laudo médico e a referência a literatura científica que comprova as diferenças entre as técnicas. A ausência de qualquer desses elementos enfraquece o pedido e aumenta o risco de indeferimento.
Para o contexto mais amplo das cirurgias robóticas ginecológicas — incluindo endometriose e histerectomia — veja o artigo sobre cirurgia robótica ginecológica e plano de saúde.
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Cirurgia robótica ginecológica pelo plano de saúde: quando a cobertura é obrigatória
Entenda quando a cirurgia robótica ginecológica pode ser exigida do plano de saúde, especialmente em casos de endometriose profunda, miomectomia, tumores pélvicos e procedimentos em que a precisão da técnica robótica é relevante para reduzir riscos cirúrgicos.
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Cirurgia robótica pelo plano de saúde: direitos do paciente
Veja o guia central sobre cirurgia robótica pelo plano de saúde, com explicações sobre indicação médica, rol da ANS, negativa abusiva, documentos necessários, liminar e procedimentos específicos.
Ler o guia principalPerguntas frequentes
Miomectomia robótica e plano de saúde: quando a cobertura pode ser obtida?
A miomectomia robótica está no rol da ANS?
Não. A miomectomia consta do Rol da ANS pela via videolaparoscópica, não pela robótica. A obtenção da cobertura depende de ação judicial com demonstração dos cinco critérios cumulativos fixados pelo STF na ADI 7265, especialmente a ausência de alternativa terapêutica equivalente no Rol para o caso concreto.
O plano pode negar a miomectomia robótica alegando que a laparoscopia convencional é equivalente?
Pode argumentar isso, e em muitos casos o argumento tem respaldo no REsp 2.132.123/SP do STJ. O argumento só é contestável quando o laudo médico demonstra, de forma individualizada, que as características do mioma ou o desejo reprodutivo da paciente tornam a robótica tecnicamente necessária para aquele caso concreto.
Quais tipos de mioma fortalecem o argumento para a via robótica?
Miomas intramurais (FIGO 3 e 4) volumosos, acima de 6 a 8 cm, que exigem sutura miometrial em múltiplas camadas; múltiplos miomas que demandam reconstrução uterina extensa; e miomas em pacientes com desejo reprodutivo ativo, para quem a qualidade da cicatriz miometrial tem impacto no prognóstico gestacional.
O que o laudo médico precisa demonstrar para sustentar o pedido de cobertura?
A classificação FIGO dos miomas, a justificativa técnica individualizada de por que a laparoscopia convencional não é equivalente para aquele caso, a referência a literatura científica sobre as diferenças entre as técnicas, e — quando aplicável — o impacto do desejo reprodutivo na escolha da via cirúrgica.
A qualidade da sutura robótica realmente influencia a gravidez futura?
Sim, segundo a literatura científica. Publicação brasileira de 2024 documenta associação entre a qualidade da sutura miometrial e complicações em gestações posteriores, identificando na robótica suturas mais assertivas com impacto positivo nas gestações futuras. Esse argumento é especialmente relevante em pacientes com desejo reprodutivo.
Qual exame de imagem é mais importante para sustentar o pedido de cobertura?
A ressonância magnética pélvica com protocolo específico para miomas é mais informativa do que a ultrassonografia para caracterizar o número, a localização e a profundidade de cada nódulo. Em casos com múltiplos miomas intramurais, a ressonância é fundamental para que o laudo médico possa individualizar adequadamente a justificativa técnica.
Todo pedido de miomectomia robótica tem viabilidade judicial?
Não. Para miomas pequenos, únicos e de localização tecnicamente simples, a laparoscopia convencional é de fato equivalente e o plano tem amparo no REsp 2.132.123/SP do STJ para manter a negativa. A avaliação caso a caso, com base nas características concretas do mioma e no quadro clínico da paciente, é o que define a viabilidade do pedido.
Quanto tempo leva para obter uma liminar de miomectomia robótica?
Em casos com sintomas incapacitantes — sangramento volumoso com anemia, dor pélvica intensa — o periculum in mora é objetivo e favorece a concessão de liminar em prazo curto, em geral entre 24 e 72 horas. Para casos eletivos sem urgência clínica imediata, o juiz é obrigado a consultar o NATJUS antes de deferir, o que tende a ampliar o prazo.

