ARTIGO | DIREITO CIVIL | LEITURA: 7 MINUTOS

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Evilasio Tenorio
OAB/PE 31.019 · Advogado especialista em Direito Médico e da Saúde. Co-autor de livros jurídicos.

Resumo do artigo

A escola não pode negar matrícula, cobrar taxa adicional nem proibir que o aluno com diabetes tipo 1 meça a glicemia, aplique insulina ou se alimente quando necessário. A Lei nº 15.439/2026 assegura porte e uso de glicosímetro, sensor e bomba de insulina nas instituições de ensino, pausas para monitoramento, adaptação razoável de atividades e cardápios adequados às necessidades nutricionais.

Introdução

A escola não pode negar matrícula a aluno com diabetes tipo 1, não pode cobrar valor adicional por causa da condição e não pode proibir que o estudante meça a glicemia, aplique insulina ou se alimente quando precisar.

Esses direitos já existiam antes de 2026, ancorados na Constituição, no Estatuto da Criança e do Adolescente e na legislação educacional. A Lei nº 15.439, de 26 de junho de 2026, os organizou e ampliou, criando um rol específico para o ambiente escolar.

Este artigo reúne o que a escola deve garantir, o que a lei nova acrescentou, onde ainda existe lacuna e o que fazer quando a instituição resiste.

Leia também:

A escola pode recusar matrícula por causa do diabetes?

Não. A recusa é ilegal, seja em escola pública ou particular.

O direito à educação com igualdade de condições de acesso e permanência está no art. 206, I, da Constituição. O Estatuto da Criança e do Adolescente garante o acesso à escola e veda discriminação, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional repete o princípio da igualdade de condições.

O mesmo raciocínio se aplica à cobrança de mensalidade maior, de taxa extra ou à exigência de acompanhante custeado pela família como condição para a matrícula. Condicionar o acesso à condição de saúde é discriminação, não gestão de risco.

A Lei nº 15.439/2026 reforçou esse ponto ao vedar expressamente qualquer forma de discriminação em razão da doença, de suas complicações ou do uso de glicosímetro, sensor, insulina, bomba de insulina e demais insumos, em ambientes públicos e privados.

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O que a Lei nº 15.439/2026 garante no ambiente escolar?

Ela reúne cinco garantias diretamente ligadas à rotina escolar.

O art. 3º assegura o porte e uso de glicosímetro, sistema de monitoramento contínuo de glicose, insulina, bomba de insulina e demais insumos nas instituições de ensino. Assegura também pausas durante a atividade escolar para monitorar a glicemia, aplicar insulina e consumir alimentos, na forma de regulamento. Prevê ainda adaptação razoável de atividades no ambiente escolar e cardápios adequados às necessidades nutricionais, com autorização para horários de alimentação flexíveis mediante solicitação do estudante ou do responsável.

O art. 4º trata dos pais e responsáveis. Garante acesso às informações nutricionais e ao cronograma das refeições oferecidas aos dependentes, de forma clara e atualizada, além de apoio psicossocial e orientativo sobre o manejo da doença.

Duas observações importam. A lei entra em vigor 180 dias após a publicação de 29 de junho de 2026. E ela garante o uso dos dispositivos na escola, não a entrega gratuita deles, que segue outro regime.

E a alimentação escolar?

A escola deve oferecer alimentação adequada, e essa regra já existia antes da lei nova.

A Lei nº 12.982/2014 alterou a legislação do Programa Nacional de Alimentação Escolar para determinar que o cardápio atenda aos alunos com necessidades alimentares específicas, incluindo diabetes, com base em recomendações médicas e nutricionais.

O procedimento prático costuma ser simples e burocrático ao mesmo tempo: apresentar laudo médico que comprove a condição e preencher formulário junto à escola ou à Secretaria de Educação. Sem esse registro formal, a adequação frequentemente não sai do papel.

A Lei nº 15.439/2026 acrescentou a esse quadro a flexibilidade de horários e o direito dos responsáveis de conhecer previamente o cronograma das refeições, o que permite planejar as doses de insulina com antecedência.

Quem aplica a insulina na criança pequena?

Aqui existe uma lacuna real, e é honesto dizer isso.

Não há norma nacional que defina quem pode administrar insulina no ambiente escolar. A Lei nº 15.439/2026 assegura o porte e uso e garante pausas para a aplicação, o que resolve a situação do estudante que já se autoaplica. Ela não define responsabilidade quando a criança é pequena demais para isso.

Na ausência de regra federal, a solução vem de normas estaduais e municipais e da organização de cada rede, com arranjos que variam bastante: presença de profissional de enfermagem, funcionários capacitados em primeiros socorros, ou acordo com a família e a equipe de saúde que acompanha a criança.

O caminho que costuma funcionar melhor é documental. Uma prescrição médica clara, dirigida à escola, indicando metas de glicemia, doses, sinais de alerta e conduta em caso de hipoglicemia, transforma uma negociação informal em protocolo. Combinada com autorização escrita dos responsáveis e contatos de emergência, ela reduz a insegurança da escola, que costuma ser a raiz da resistência.

Vale lembrar que, mesmo sem regra específica sobre aplicação, a escola tem dever de guarda e de socorro em situações de urgência.

O que fazer quando a escola resiste?

Documente, formalize e escale gradualmente, começando pelo caminho menos litigioso.

Um roteiro que funciona:

  1. apresente por escrito o laudo médico e a prescrição dirigida à escola, com protocolo de entrega;
  2. solicite reunião com a direção e registre em ata os pontos acordados;
  3. peça por escrito a negativa ou a exigência que considera indevida, porque recusa verbal não serve como prova;
  4. na rede pública, acione a Secretaria de Educação; na rede privada, registre reclamação nos órgãos de defesa do consumidor;
  5. procure o Conselho Tutelar, que atua na proteção de direitos de crianças e adolescentes;
  6. represente ao Ministério Público, que tem atribuição própria em educação e em infância e juventude.

O item 6 costuma ser o mais eficaz e é subutilizado. A representação é gratuita, não exige advogado e frequentemente resolve sem processo, além de alcançar outras famílias na mesma escola.

Conclusão

O aluno com diabetes tipo 1 tem direito a estudar em igualdade de condições, a medir a glicemia e aplicar insulina quando necessário, a se alimentar fora do horário padrão e a receber cardápio adequado.

A Lei nº 15.439/2026 consolidou essas garantias e acrescentou pausas, adaptação de atividades e acesso dos responsáveis ao cronograma das refeições, com vigência prevista para cerca de 180 dias após 29 de junho de 2026.

O ponto que ainda depende de arranjo local é a aplicação de insulina em crianças pequenas. Nesse caso, o instrumento mais útil não é a lei, é o documento: uma prescrição escrita e detalhada dirigida à escola resolve, na prática, a maior parte dos conflitos, porque substitui a insegurança por protocolo.

Se este artigo foi útil, leia também nosso conteúdo sobre sensor de glicose e bomba de insulina pelo SUS.

Este artigo faz parte do guia temático
Diabetes tipo 1: sensor, bomba de insulina e seus direitos

Reunimos aqui o que quem convive com diabetes tipo 1 precisa saber sobre acesso a tratamento: o que o SUS já é obrigado a fornecer, por que o sensor de glicose e a bomba de insulina ficaram fora das listas oficiais e quais caminhos existem diante de uma negativa.


Perguntas frequentes

Diabetes na escola

A escola pode negar matrícula por causa do diabetes?

Não. A recusa é ilegal em escolas públicas e particulares, por violar o direito à educação em igualdade de condições previsto na Constituição, no Estatuto da Criança e do Adolescente e na legislação educacional.

A escola pode cobrar taxa extra ou exigir acompanhante?

Não pode condicionar a matrícula a cobrança adicional ou à contratação de acompanhante custeado pela família em razão da condição de saúde. Isso caracteriza discriminação.

Meu filho pode medir a glicemia em sala de aula?

Sim. A Lei nº 15.439/2026 assegura o porte e uso de glicosímetro, sensor e bomba de insulina nas instituições de ensino e garante pausas para monitoramento, aplicação de insulina e alimentação.

A escola precisa adaptar a merenda?

Sim. A legislação do Programa Nacional de Alimentação Escolar determina que o cardápio atenda alunos com necessidades alimentares específicas, mediante apresentação de laudo médico e registro formal junto à escola ou à Secretaria de Educação.

Quem aplica insulina em criança pequena na escola?

Não há norma nacional sobre isso. A solução depende de normas estaduais e municipais e da organização de cada rede. Uma prescrição médica detalhada dirigida à escola, com autorização escrita dos responsáveis, é o instrumento mais eficaz na prática.

A escola se recusa a cumprir. O que faço?

Formalize tudo por escrito e guarde protocolos. Depois acione a Secretaria de Educação ou os órgãos de defesa do consumidor, o Conselho Tutelar e, se necessário, o Ministério Público, que atua gratuitamente e sem necessidade de advogado.

Este conteúdo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional e não substitui a análise jurídica individualizada. A leitura do artigo não configura consultoria jurídica nem estabelece relação advogado-cliente. Cada caso possui particularidades próprias que exigem uma análise individualizada a ser realizada por advogado de sua confiança.

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Evilasio Tenorio, advogado especialista em Direito da Saúde e Direito Médico

Evilasio Tenorio

Advogado líder · OAB/PE 31.019 · LL.M. em Direito Médico e da Saúde (UNICAP)

Fundador do TSA | Tenorio da Silva Advocacia, com mais de 15 anos de atuação em Direito da Saúde, Direito Médico, Direito Civil e Direitos da Pessoa com Deficiência. Representa pacientes em ações contra planos de saúde e contra o SUS para acesso a medicamentos de alto custo, cirurgias, exames, home care, terapias para autismo e tratamentos oncológicos, e atua na defesa de médicos, clínicas e profissionais da saúde. Coautor de livros jurídicos pela Editora Foco e membro da Comissão de Direito e Saúde da OAB/PE.

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